O
documentário recupera a história de um projeto pedagógico sem precedentes –
pelo menos de acordo com os depoimentos do filme – na educação brasileira, as
escolas vocacionais. Espalhadas em diferentes partes do estado de São Paulo, as
escolas pretendiam criar um ensino altamente inovador e experimental, no qual
os alunos desenvolvessem a capacidade crítica, bem como as capacidades
produtivas necessárias para o exercício pleno da cidadania. Além disso, era
pensado como um espaço democrático e aberto a todas as classes sociais. Porém,
o projeto não durou muito, tendo começo no início da década de 1960 e encerrado
em 1970.
O
filme é dividido em duas partes bem características, seguidas por uma breve
conclusão. Na primeira parte, o tema é justamente a relembrando a escola. O que
se destaca nessas falas é uma forte ênfase afetiva, é difícil não se emocionar
com algumas falas. Esse é, a meu ver, o ponto alto do filme. Se existe algo que
o processo educativo proporciona é a constituição dessa relação afetiva com o próprio
passado, no fundo a escola ocupa um papel decisivo na constituição de nossas
subjetividades. E não existe expressão mais forte disso do que a capacidade de
recontar a própria vida como um enredo articulado e repleto de sentido. E nesse
enredo, a escola costuma ocupar um espaço estruturante.
O
problema é que não existe uma preocupação em se distanciar desse nexo afetivo.
Na realidade, essas memórias afetivas são utilizadas para construir uma
interpretação da realidade educacional. Elas ousaram fazer o que nenhuma outra
escola pretendeu, ousaram pensar. Essa singularidade, inscrita em termos
propositalmente abstratos e quase metafísicos (pensamento, crítica, saber,
etc.), transcorreno conjunto das falas, as quais citam os mais diferentes
exemplos práticos: as aulas de artes que estimulavam à criatividade, o hábito
de desenvolvimento dos ofícios mecânicos, a utilização da matemática aplicada a
situações cotidianas, os trabalhos de campo, o sistema de avaliação baseado
numa multiplicidade de atividades, a discussão coletiva dos temas de estudo,
entre muitas outras situações. Nessa coleção de exemplos, o espectador
acompanha o desvelar de uma instituição fundada sobre o binômio
autonomia/liberdade. A escola surge como o local que possibilita o desenvolvimento
da autonomia de todos os alunos, cada um a sua maneira, cada um segundo si
próprio. E é disso que resulta sua positividade.
Na
realidade, o que é necessário é a promoção de disciplinas espontâneas, que são
praticadas por todos e interiorizadas por cada um. O que a escola ensina é
fundamentalmente a prática de autogoverno, tornando dispensável a existência de
uma autoridade exterior responsável pela constante reafirmação das regras
disciplinares. E a peça chave disso tudo é o exame, o rigoroso processo de
avaliação que perpassa todo processo educativo. Nesse sentido, as escolas
vocacionais, longe de qualquer excepcionalidade, foram instituições exemplares
na instauração da gramática escolar.
Ao
contrário da ênfase colocada no filme, esses projetos de escolas libertárias,
democráticas e críticas foram bastante comuns e freqüentes. Para combater os
efeitos maléficos dessa escola, sempre vistas como responsáveis pelas mazelas
sociais mais amplas, muitos pedagogos e professores elaboraram projetos
reformadores que pretendiam corrigir os erros e criar a escola perfeita, ou
pelo menos mais eficiente. O que chama atenção nessas propostas é que todas
sempre se auto-representaram como escolas excepcionais, que torciam
radicalmente a lógica da escola tradicional. Porém, apesar disso, os elementos
estruturantes, aquela gramática escolar, permaneceram intocáveis. Nenhuma
escola reformada conseguiu, de fato, abolir o ideal disciplinar de autogoverno
e da economia de recursos autoritários que organizou a escola moderna.
Ainda
assim, é na segunda parte do filme que esse tema da excepcionalidade ganha mais
força, para em seguida revelar sua dimensão propositiva e política. Como disse
antes, apesar dos bons resultados alcançados pelas escolas, o projeto foi
bruscamente encerrado em 1970. Os motivos do encerramento são bastante óbvios,
as escolas foram consideradas focos de subversão pelo governo militar. O
problema, porém, começou por causa de um fato bastante diverso. Um professor,
que não cumprira corretamente suas funções e recebera o aviso de sua demissão,
resolveu chantagear a diretora. Caso sua demissão não fosse revista, iria
denunciá-la por atos subversivos. Como ela não aceitou a chantagem, o professor
realmente enviou as denúncias, dando início ao processo de perseguição que
acabaria encerrando o projeto vocacional. Essa relação entre
delação/perseguição é central em qualquer regime autoritário. Pequenas disputas
acabam extravasando da órbita cotidiana, recorrendo aos mecanismos de repressão
mais amplos.
No
entanto, não é isso que ganha relevo. O documentário realiza uma conexão muito
simples entre a excepcionalidade do projeto educacional com a repressão
política. A escola foi perseguida porque ensinava seus alunos a pensar. Essa é
a resposta fornecida por todos os entrevistados. E isso tem um sentido político
muito claro. No fundo, o que permite essa aproximação é uma crença central ao
filme, qual seja a de que a escola é o espaço privilegiado para transformação
do mundo. Uma escola tradicional, portanto voltada para a manutenção das
hierarquias sociais, é fundamental para um regime autoritário. Uma escola de
vanguarda, por outro lado, seria capaz de corroer por dentro esse regime
autoritário. O regime militar acabou arruinando aquilo que fora o projeto
educacional mais ousado já visto em território brasileiro. E os efeitos disso
chegam aos dias de hoje.
Hoje,
e isso é outra unanimidade entre os entrevistados, existe uma verdadeira
falência da escola pública, bem como a existência de ilhas de excelência no
universo das escolas particulares. A conclusão do filme, perpassada por um
misto de melancolia, mas também desejo de renovação, é que o Brasil poderia ter
sido diferente caso as escolas vocacionais tivessem vingado e se espalhado.
Cabe agora, portanto, tentar recuperar um pouco o espírito daquilo que foi
abortado. Isso significa, sobretudo, uma reatulização daquela gramática
escolar. A única possibilidade de redenção do presente injusto em que vivemos é
a criação de uma escola realmente eficaz e poderosa, capaz de transformar
nossas mazelas.
Porém,
muito mais do que uma suposta cisão entre as ditas escolas tradicionais, ou
escolas públicas falidas, e uma suposta escola crítica e pensante, o que vemos
é a mesma lógica de funcionamento. Por mais revolucionária que a escola queira
se imaginar, ela sempre recupera os mesmos elementos estruturantes na base do
seu funcionamento. Nunca houve, por exemplo, uma escola que decidisse abolir
totalmente a noção de exame. Ainda possam funcionar de forma bastante flexível,
as avaliações sempre aparecem em algum momento do trabalho escolar. É a
presença constante desses elementos que possibilitam o cumprimento da função
disciplinar que marca a instituição escolar. O discurso da excepcionalidade,
portanto, precisa ser compreendido apenas como uma forma de intensificação e
aprimoramento do que já está dado e não como ruptura ou avanço. A partir disso,
também é possível começar uma desconstrução dessa esperança tão disseminada de
que a escola poderá realmente transformar a ordem do mundo.